Uno
14 julho, 2011
Numa ânsia de sair, se esvair pelos poros.
Feito torrente de água invandindo ruas, terras.
Tomando todos os espaços, todos os abraços.
Envolvendo, sem lacuna, sem vácuo.
Num desejo de ser absoluto, palpável.
Substância pura, que não se reparte, que não se perde.
Numa vontade de ir aos pulmões, cair na corrente, alimentar o sangue.
De ser bloco, pesado, grave, decisivo.
Atrapalha
3 janeiro, 2011
Ando me questionando, parada.
Coisas que uma boa parte desse mundo de gente se perguntou,
ou se irritou por não chegar a lugar algum num marzão de não-sei.
Imediatamente, ao me colocar a estalar o cérebro, resgato este mesmo início.
Acho que não gosto de pensar.
Não pensar, não raciocinar com esse raciocínio lógico, de sempre, tão cabível aos meus hábitos, é o mais inteligente.
Não é o pensar. Mas é que a escolha do não pensar me coloca num caminho de intuir outra forma.
Há algo que nos fala.
E o pensamento atrapalha ouvi-lo.
Não há que se pensar. Há que se botar logo, em ação e resultado, um agir que nos imprima uma coisa muito nossa.
Uma essência.
Um negócio que vai perdendo, deixando de ser o leito que guia o rio.
Pensar, isso sim, atrapalha.
Que é.
17 julho, 2010
Não sei se essa é a melhor música de escutar agora.
Acho que não é não.
Acho que não tem nenhuma música de escutar agora.
Queria saber mesmo porque, independente da ação, fico me sentindo assim pesada.
Será sempre?
Será sempre resgatar todas as mensagens, todas as decodificações, todas as imagens?
De sempre buscar na imaginação se haverá lembrança boa ou se serei um fantasma apenas.
Isso é ruim. De verdade.
Toda vez que boto um ponto.
O que vai viver?
Porque a gente tem que acreditar no que é invisível, no que não se imagina de tão grandioso que é.
Mas isso parece também muito idealismo.
A vida real é recheada de ilusão, de buraco no chão, de silêncios.
O que pega é ir além disso, é ver onde não há forma.
Pelo menos será mentira dizer que voltei ao mesmo lugar onde estava antes. Onde estávamos antes.
Martelo
24 abril, 2010
O que a gente não esquece.
E lembra porque a lembrança, às vezes, não mora só no nosso pensamento
ou na pele.
Ela vive no rosto que você vê dentro no ônibus,
na moça de bicicleta a caminho do trabalho na hora do almoço,
na canção sorrateira que toca como background de uma reportagem.
Definitivamente, a lembrança não está na gente,
e sim no universo ao redor.
E tem dias que esses fragmentos de imagem, cor, som e cheiro não passam batido.
O que bate mesmo é um martelo invisível, porém muiro pesado, nessa cabeça
que então não pára de pensar.
Expressão
29 março, 2010
Aqui não há nada da poesia melódica de “Barracão”
nem se ouve “a voz do morro sou eu”.
Aqui não tem samba, funk, aviãozinho.
O frio de alguns períodos do ano não deixa mostrar aquele calor das costas desnudas das favelas de lá.
Aqui não tem pipa, toque de recolher, assistencialismo.
Nem a escola é terreno da violência do dono da boca.
Mas creio que a imagem da favela, pra quem mora na favela, é igual pra quase todos.
A expressão do morro diante de si é um tal modelo.
É por isso que todos precisamos aprender a falar.
Pra falar de si com propriedade, com a realidade das minúcias.
E não do modo que a massa apreende – tão previsível e raso.
Não é barracão, eternit, viela, tijolo e concreto.
Não é tráfico, briga de galo, saque, barro.
Mas quem tem que saber, antes de tudo, é quem sobe e vive no morro.
Pra ver se passa
20 março, 2010
Todo mundo tão ocupado.
Tão envolvido.
Que ultimamente só me envolvo comigo.
E a companhia mais efetiva é essa:
De coisas a frente, do lado, de letreiros e placas,
de construções e muita gente e muito carro.
Mas que tipo mesmo de presença?
Acho que queria me ocupar do mesmo que os outros, pra ver se passa.
Qual delas
14 março, 2010
Eu sempre torço.
Incentivo pacas.
Visualizo, prometo, instigo, mexo, encho o saco.
Falo à beça.
Eu me recolho. Não telefono. Não escrevo.
E não esqueço.
E fico pensando que tipo de caminho,
que sorte haverá.
Quantos livros escreverão.
Quantas esquetes encenarão só elas.
Que tipo de vidas vão esboçar nos caminhos e descaminhos.
Que narrativa acabará indo para o papel.
Qual a personagem que falará, que suará, incitará, fará do amor.
Qual delas.
Enquanto eu cá sintonizo a medida do bem de querer.
Queridas.
Desktop
14 março, 2010
Ai, segura
14 março, 2010
Maurício
6 março, 2010
No mesmo lugar.
Acho que sem querer eu já cantava pra prever
que encontraria Maurício.
Engraçado isso. De cantar algo que se tem um nome,
e depois encontrar alguém que tem esse nome mesmo.
E como pode dois negócios assim tão diferentes e tão presentes – mesmo que em tempos separados?
“Já não sei dizer se ainda sei sentir.
O meu coração já não me pertence,
já não quer mais me obedecer.
Parece agora estar tão cansado quanto eu.
Até pensei que era mais por não saber
que ainda sou capaz de acreditar.
Me sinto tão só
e dizem que a solidão até que me cai bem…
Às vezes faço planos,
às vezes quero ir pra algum país distante,
voltar a ser feliz.
Já não sei dizer o que aconteceu.
Se tudo o que sonhei foi mesmo um sonho meu.
Se meu desejo então já se realizou
o que fazer depois, pra onde é que vou?"
Maurício.:.Legião Urbana








