Pra celebrar
14 Outubro, 2009




Eu nem pensei que fosse ver esse povo todo junto.
Depois de tanto tempo, a cidade quase perdeu a auto-estima.
E agora chega outubro, todo mundo se veste
e coloca flor no cabelo ou puxa as meias até o joelho.
Aí, aquela vibe percorre todas as ruas,
desliza pela decoração nos postes e nas lojas.
Quem há de entender a alegria de ver uma dupla cantando música típica alemã
e pessoas de idades variadas dançando entre as mesas?
A festa aqui se chama Fenarreco.
Eu acho engraçado: Festa Nacional do Marreco.
Mas aqui os brusquenses se identificam com isso.
Eu acho lindo.
Quando alguém consegue estragar…
22 Setembro, 2009

…o valor informativo de uma foto.
Toda primavera
21 Setembro, 2009

Rebento de flor.
Todo dia há plantas mil se exibindo pelos jardins.
Mas há um punhado de dias específico
de onde elas vêm com intensidade, insinuantes,
cheias de propriedade, mostrando todas as possibilidades de cores.
E antes há uma corrente que avisa os botões:
é tempo de estourar.
Pode bem ser que essa corrente
tenha sido a gênese de uma vida.
Não exatamente a vida de anos contados,
mas a vida no momento em que a oportunidade pra se viver
fez os espíritos se encontrarem.
Hoje é dia 21 de setembro.
Da dança
20 Setembro, 2009
aguardando na coxia
Da dança que se faz com os olhos.
Foi em um festival que aconteceu por cá.
Bailarinas vestindo todo o tipo de saias e véus.
Durante a alta noite
18 Setembro, 2009

Deve ter se ‘metamorfoseado’ durante alguns dias.
Feliz coincidência topar assim,
depois de uma madrugada de luta
contra a pele do casulo,
em frente a uma loja de armamento,
depois de uma construção barulhenta,
e antes de uma encruzilhada de ruas.
Também eu nasci num dia de chuva e vento.
Imbatível
17 Setembro, 2009

Perto de casa.
Depois da Casas Bahia dobre a esquerda.
Na ida nada se vê.
Mas na volta do mercado,
depois de atravessar a esquina sanguinária da Germano Schaefer com a Alexandre Gevaerd,
com as mãos cheias de compras,
toda esbaforida de ter escapado aos carros.
“Nunca nesse mundo se está sozinho”
Chame Ogum.
Pegou
15 Setembro, 2009

Não apavora ver o que o fogo consumiu?
Chegar em um lugar, mesmo que a casa não seja a tua,
mesmo que a família embasbacada não seja a tua,
não toca ver a efemeridade de uma estrutura,
de um abrigo, diante de algo que tem o poder de transformar
a matéria com tanta propriedade?
E mais: não só pelas paredes que secaram,
não apenas pelo pretume que escorre de cima de cada tábua
ou pelo cheiro encarniçado de coisa queimada que não sai do nariz,
da roupa, do cabelo,
mas pela noção de aqui, neste ambiente,
algo provocou uma mudança maior.
A gente que ali morava, já não mora mais.
Agora, é novo. Tudo,
mesmo que não tenha aquela cara de novo que a gente imagina.
Alguma coisa queimou.
Mas é uma mentira.
Porque ninguém mais ocupava a residência,
há 20 dias.
E ninguém sabe como-é que pegou fogo.
Não sei, pegou.
Porque eu gosto de ver gente interessada
11 Setembro, 2009

Não é porque o prefeito ainda não chegou para entregar os cheques da indenização àqueles que tiveram as casas embargadas depois de um deslizamento que “lavou” parte da comunidade, que vou ficar olhando as paredes encarpetadas.
Porque eu gosto de ver gente interessada. Que cata o jornal e fixa os olhos nas manchetes, na informações – e nas figurinhas. Leitura que acompanha o indivíduo onde for torna os minutos menos desinteressantes enquanto é preciso aguardar. Além da formação, a leitura – jornalística ou literária ou documental – acresce a pessoa de um censo crítico que a transforma em olho que vê verdadeiramente. Ou quase.
Em uma cidade como essa, o mínimo para um cidadão é se inteirar. É saber o que assola os moradores da vila A, B, C, é aderir a um movimento de participação no orçamento, é encontrar meios de reclamar e exigir. A leitura, por rápida que seja, já coloca a criatura mais atrelada a realidade. E assim as folhas que deixam os dedos pretos chegam ao fim antes de os cheques serem assinados. Talvez ao se levantar e atravessar a porta, novos tinos podem instigar uma mente pró-interessada.
O que se faz com as mãos
3 Setembro, 2009

canteiro.
Antes de o sol clarear, dá de ouvir a conversação dos homens pelas ruas de Brusque.
Enxada da mão, luvas par conter os calos, chapéu pra aquecer, já que faz bem pouco que a temperatura tem subido sensivelmente. Antes que as crianças acordem para o café e para o uniforme, antes que os jornais sejam abertos sobre a mesa e que as lojas recebam a clientela que aguarda com os carnês nas mãos, esses plantadores já estão dispersos pelos canteiros centrais da cidade.
Que tanto eles plantam se ainda as flores não padeceram ao tempo, eu não sei. Mas antes disso, quando os jardinzinhos estavam nus e a paisagem não apresentava nadica de cor, apenas fumaça de carros e fuligem do asfalto, eles se aprontaram com o café na térmica e carrinho de mão.
Cada vida de planta segura em pacotinho de plástico com furos, que é pra água não empoçar. Várias vidas de planta em caixotes de madeira. Trilha por sobre a terra e os homens a enfileirar buracos, com cuidado pras novatas não sucumbirem a um passo descuidado e duro. É só cortar do lado, o pacotinho, comprimir a terra, sacar a flor e enfiá-la na cova.
Aí está a sorte de em uma manhã bem manhã, com o relógio biológico desregulado, visitar o céu pra saber chove-não-chove, e ver a delicadeza ser plantada bem embaixo da sacada.
Da fala
3 Setembro, 2009

agora senhor.
Uma figura.
Entre a carreira política e o futebol jogado,
dizem que não perde mesmo o fio da fala.
Encosta-se na cadeira,
sabe-se respeitado.
Volta o corpo, segura os óculos,
devolve-os ao balcão.
Enquanto as duas cadeiras ao lado estão vazias,
contenta-se em ouvir os que falam um pouco distantes
antes de pousar a mãos e fechar os olhos.
Dizem também que era broto e disputado.
Mantém-se sensível